[ARTIGO] E o povo se alegrou, por Diógenes Fagner

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E O POVO SE ALEGROU

Num desses becos entulhados de mini comércios em Santa Cruz tem a loja de livros usados. Neste lugar, cujo dono tem aquele ar alternativo que emana da atmosfera do conhecimento, é preciso um esforço para gastar 50 reais e, sendo assim, por razões econômicas e culturais, é um bom lugar para ir quando tudo que deveria ser resolvido numa manhã comum de segunda-feira dá errado. Foi o que aconteceu comigo. O Bradesco estava impossível e o SAAE fechado porque a administração pública municipal no momento não existe. Frustrado e afim de não perder a viagem, eu entrei no Ribeira do Trairi com o objetivo de encontrar algum livro que me ajudasse a entender o que diabos se passa com Santa Cruz. A cidade, de um dia para o outro, está sem governo municipal. O poder está vazio e exércitos de advogados se digladiam para legitimar o próximo administrador. Como chegamos a esse ponto? Quem ganhará quando o mais forte se impuser?

Escondido no meio de livros evangélicos, encontrei um exemplar de “Memória Histórica de Santa Cruz”, do Monsenhor Severino. Na época da faculdade, há uns anos, li esta obra procurando informações sobre a escravidão em Santa Cruz. Só encontrei uma lista com os nomes de fazendeiros que tiveram escravos e o dado de que a Abolição libertou 26 pessoas na nossa cidade. Lendo-o hoje, com as preocupações do presente, me detive num capítulo em que o monsenhor narra que um certo João da Silva, no ano de 1889, anunciou a proclamação da República em Santa Cruz de cima de um tamborete na frente do mercado público “e o povo se alegrou”. Esta última frase me fez pensar: que povo foi esse que se alegrou na frente do mercado em 1889? O que pensaram os 26 recém libertos sobre uma república municipal administrada por velhos senhores de escravos? Eis o problema das abstrações coletivas. O que é o “povo”? Há sempre as pessoas concretas, a sociedade real que é dividida e injusta e há também os discursos generalistas. No papel da lei, aquela que João da Silva anunciou lá em 1889, somos todos iguais, o cidadão da Cega Matilde que respira a fumaça do lixão e o que frequenta o Oba Oba nas noites de sábado. Dito assim, fica escancarado o vazio desta igualdade meramente formal.

Na disputa atual que segue anunciando um vencedor de hora em hora, cada grupo se autoproclama como legítimo representante do “povo’’ e a maioria da população, que não está na lista dos mais de 200 cargos comissionados, assiste a esta novela política apenas com um interesse anedótico. Parece que no fundo todos sabem que o que está em jogo é ocupar o poder para servir-se pessoalmente dele. E o idealista (quantos será que ainda existem em Santa Cruz?), que sonha honestamente com um governo para os mais pobres e fracos se angustia com a irracionalidade ética da política. E pouca coisa pode fazer.
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Comprei o livro e saí do sebo em busca de um moto-taxi para me levar de volta para casa. Fiz um esforço para imaginar e escolher aquele que simplesmente pilotaria rápido e em silêncio. Mas não teve jeito. No trajeto, o moto taxista foi o caminho todo se lamentando que tinha ido dormir com um cargo na prefeitura e acordado sem ele porque o novo prefeito já não era mais prefeito.

Diogenes Fagner