Conversas em tempo de crise, por Diógenes Fagner

CONVERSAS EM TEMPO DE CRISE

Podia ser que chovesse a noite. Mesmo assim, sob o frio e a incerteza, Adriel e Renan abriram uma garrafa de vinho e brindaram a amizade. Há dois anos eles não se viam. Na primeira garrafa, atualizaram-se sobre os assuntos comuns da vida íntima e profissional. O tema da crise política apareceu quando Adriel citou o caso de um amigo que perdera o emprego na prefeitura. Neste momento, o diálogo entrou no terreno das convicções.

Adriel lamentou a cassação do grupo do Deputado. Para ele, Santa Cruz tornou-se um lugar melhor depois de Tomba. “Tu sabe que eu sou realista”.

Para Renan, ao contrário, o mérito é dos governos do PT. Tomba sempre foi um político que, se fez algo por Santa Cruz, fez ainda mais por sua família e seus apoiadores. “O realismo político, Adriel!, é a escolha mais fácil, porque aceita o mundo como ele é”.

Enfatizou o nome para trazer de volta a atenção do amigo, pois este observava a mulher da mesa ao lado.

Que tal um meio termo, propôs Adriel. “E se concordarmos que ambos, Tomba e o PT, contribuíram para melhorar a cidade? Não seria razoável reconhecer que Tomba e Fernanda, como gestores, conseguiram implementar no município programas federais e, nesse sentido, políticas petistas? Afinal de contas, Tomba chegou ao poder praticamente na mesma época que Lula”.

Talvez, ponderou Renan. “Mas me desagrada que exaltemos esta dita “eficiência”. O que Tomba e seu grupo realizou nos últimos 18 anos, gestores honestos e um grupo de técnicos concursados também teriam realizado e, além do mais, o teriam feito numa relação justa do poder municipal com os santa-cruzenses capacitados, sem subtrair recursos públicos.”

Eu entendo, disse Adriel. “A corrupção é um problema, mas, Renan, quando um candidato honesto e eficiente aparecer em Santa Cruz, se é que existe, este terá meu apoio.”

Neste momento, Renan assumiu uma postura antiga, pedante, da qual Adriel não gostava. “Eu não lhe entendo. É preciso um mínimo de princípios e boa-fé. Como você acredita que estes novos políticos nascerão sem o apoio das pessoas, sem que lhes sejam dadas as condições para crescer?!”.

A conversa antes cordial foi ocupada por ironias.

Estas divergências ideológicas e da forma de falar, Adriel sempre dissera que era mais a forma, noutros tempos teriam conduzido a uma briga. Mas Renan se conteve. Segurou as palavras.  Elas certamente depois fugiriam e apareceriam na forma de sua já conhecida tosse seca.

Abriram a segunda garrafa, mudaram de assunto.

A meia noite, uma chuva obrigou o Bar a fechar mais cedo e os amigos se despediram com afeto.

Em casa, na cama, Renan sentiu um pouco de tristeza. Será que foi agressivo com Adriel?  “Como é difícil ser ao mesmo tempo cordial e verdadeiro” pensou… e, já adentrando o registro do sonho, assistiu a si mesmo a voar sobre as ruas e prédios de Santa Cruz, num sonho repetitivo da infância cujo sentido ignora…

 

Por Diógenes Fagner