
Uma cidade de 87 mil habitantes na Grande Natal pode se tornar, na quinta-feira (20), sede de um dos supercomputadores mais potentes do mundo. O presidente Lula visita o Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), em Macaíba (RN), às 15h, para anúncios sobre supercomputadores e soberania digital. A visita de Lula ao PAX é a etapa institucional de uma agenda no Rio Grande do Norte que inclui ato político em Natal no fim da tarde.
A governadora Fátima Bezerra declarou que a agenda é “muito importante para o Rio Grande do Norte” e que o presidente vai anunciar “uma grande conquista fruto da parceria entre o governo do estado e o governo federal”. A expectativa é de que o PAX, uma estrutura inaugurada em dezembro de 2022, seja confirmado como sede de um dos dois supercomputadores previstos no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). O “cérebro eletrônico” se somaria a um ecossistema que já reúne pesquisa em neurociência, saúde, formação técnica e políticas de cidades inteligentes a 27 quilômetros de Natal.
O governo federal alterou o PBIA e decidiu comprar dois supercomputadores, em vez de um, com custo total acima de R$ 2 bilhões. A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, informou à Folha de S.Paulo, em 12 de agosto, que um dos equipamentos será adquirido dos Estados Unidos e o outro da China, com licitações previstas para os próximos dias. No dia 13, a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, disse ao portal Mobile Time que o edital depende apenas de espaço na agenda do presidente: “o martelo já está batido”, afirmou. O equipamento deve entrar em operação em 2027.
Tríplice hélice em funcionamento em Macaíba
O PAX já concentra infraestrutura científica e produtiva. O parque ocupa cerca de 50 hectares e 15 mil metros quadrados de área construída e abriga 38 empresas e startups nas áreas de tecnologias espaciais, energia, minerais críticos, indústria 4.0 e saúde. No mesmo complexo funciona o Instituto Santos Dumont (ISD), organização social federal que administra o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra (IIN-ELS), o Campus do Cérebro idealizado pelo neurocientista Miguel Nicolelis, e o Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi.
Consultoria vinculada ao Banco Mundial classificou o PAX como um dos raros parques tecnológicos no mundo que nasceu com todos os atores da Tríplice Hélice, universidades, poder público e setor produtivo, formalmente comprometidos desde a constituição. Em julho de 2026, Macaíba foi selecionada pelo Ministério das Cidades para o Projeto Rede Cidades Mais Inteligentes BR, um grupo de 22 municípios no país.
Uma equipe técnica do MCTI esteve no parque antes da ministra Luciana Santos e avaliou três áreas para instalação do supercomputador, uma delas apontada como “preferível”. Na visita de 3 de agosto, a ministra disse que a candidatura potiguar “reúne um conjunto de elementos importantes”: energia renovável, localização diante da expansão dos novos cabos submarinos de fibra óptica que conectarão o Brasil a outros continentes, e a infraestrutura do PAX. Olavo Bueno, diretor-presidente do parque, afirmou que “o supercomputador não representa o início de uma trajetória, mas um acelerador de competências já existentes”.
Potência para o sexto lugar do mundo
O equipamento principal terá potência instalada de 9,2 megawatts, consumo equivalente ao de 45 mil residências, e capacidade para figurar na sexta posição do ranking Top500, que lista os computadores mais potentes do planeta. As especificações técnicas foram definidas pelo Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis (RJ), que era o destino original do supercomputador antes de ser descartado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) pelo alto custo da energia elétrica na cidade fluminense.
Na véspera da entrevista à Folha, o presidente Lula disse em coletiva que o Brasil não está pronto para disputar tecnologicamente com norte-americanos nem com chineses, e que quer os dois países “conosco”. A ministra Luciana Santos justificou a decisão pelo Executivo: “Isso vai ser decidido pelo Executivo porque [de outra forma] atrasaria a execução da compra e o tempo urge. Pesquisas sobre moléculas, por exemplo, demoram até cinco anos e poderemos reduzir isso para semanas com o supercomputador.”
O edital prevê três fases. A primeira é a compra de um equipamento entre os dez mais potentes do mundo, sem restrição de origem, cujo fornecedor provável, na avaliação da ministra, é a Nvidia, com sede nos Estados Unidos. A segunda é uma encomenda tecnológica com países em desenvolvimento, sendo a China o único com capacidade de fornecimento. A terceira é o investimento em processadores de arquitetura aberta coordenados pela RISC-V International, com sede na Suíça. Todos os contratos incluem transferência de tecnologia em software e hardware.
Waico e o risco geopolítico
A busca por fornecedores alternativos já estava em curso, mas foi consolidada durante a adesão do Brasil à Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), criada em julho de 2026 na Conferência Mundial de IA em Xangai, com 29 países fundadores. “É uma aliança estratégica. Nós fazemos cooperação internacional, e a soberania não é exclusão de transferência nem de cooperação”, afirmou Luciana Santos à Folha.
A ministra reconheceu que a operação envolve riscos. “Os Estados Unidos ameaçam cessar o fornecimento a quem fizer negócios nessas áreas mais críticas com a China“, disse. Ela ponderou que as empresas norte-americanas também têm interesse em vender ao Brasil, considerando que a compra supera R$ 1 bilhão: “Não sei até que ponto o que é proclamado vai acontecer na prática, porque se trata de um interesse objetivo.”
As máquinas serão usadas no treinamento de modelos brasileiros de inteligência artificial e ficarão disponíveis para governos, universidades e empresas, em modelo de acesso similar ao do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). A ministra da Gestão, Esther Dweck, detalhou ao Mobile Time que o supercomputador será o primeiro do país dedicado exclusivamente à inteligência artificial, com fila de governança de uso estruturada para atender setor público, pesquisa e iniciativa privada.
RN se candidatou para abrigar supercomputador
O Rio Grande do Norte apresentou candidatura formal ao MCTI em dezembro de 2025 e reforçou a proposta em março de 2026, quando a governadora Fátima Bezerra entregou ao ministério documentação técnica com carta de endosso de oito instituições, entre universidades, institutos federais e entidades do setor produtivo. O argumento central da candidatura potiguar é energético: entre 98% e 99% da matriz do estado provém de fontes renováveis, e o supercomputador demanda potência contínua na faixa de 10 a 15 megawatts.
Além do RN, o governo federal avaliou a cidade do Rio de Janeiro e Campinas (SP) como possíveis locais. A ministra Luciana Santos disse à Folha que “a nossa tendência é escolher um lugar no Sudeste e outro no Nordeste, em função do enfrentamento da desigualdade regional”. Em 3 de agosto, durante passagem por Natal, a ministra havia confirmado que a decisão final caberia ao presidente Lula.
O LNCC, em Petrópolis, sede histórica do supercomputador Santos Dumont, foi descartado em junho de 2025 por conta do custo de energia. O Santos Dumont passou por atualização recente com recursos do PBIA: “Ele estava entre os 500 melhores, e nós o colocamos no top 100 em função desse upgrade”, afirmou a ministra Luciana Santos.
O PBIA em números
O PBIA prevê investimentos de R$ 23 bilhões em quatro anos e foi construído em parceria com 117 instituições, entre universidades, empresas e entidades da sociedade civil. De acordo com as ministras Luciana Santos e Esther Dweck, R$ 14,2 bilhões já foram executados, incluindo R$ 2 bilhões investidos pelo Serpro e pela Dataprev na repatriação de dados governamentais e hospedagem de ativos estratégicos em infraestrutura nacional.
O governo federal já entregou 20 computadores de alto desempenho da Intel a universidades e está adaptando cinco dos Centros Nacionais de Processamento de Alto Desempenho (Cenapads) ao trabalho com inteligência artificial. Na área de formação, 72 mil servidores públicos foram capacitados e 202 cursos superiores ligados à temática foram criados.
Com informações do Movimento Econômico